RAZÃO
GLOBAL/RAZÃO LOCAL/RAZÃO CLANDESTINA
Reflexões
sobre a cidadania e o migrante.[1]
Maria Adélia A. de Souza
Professora Titular de Geografia Humana da USP (aposentada)
Campinas, setembro 2015.
Este texto, ainda preliminar,
iniciado em 1995 revela um singelo esforço de reflexão para compreender a
mobilidade dos homens na face da Terra, neste período da História. Ele está
sendo retomado por mim, estimulada que tenho sido pela pesquisa sobre a Diáspora
Haitiana realizada na UNILA[2],
da qual fui convidada a ser colaboradora.
Trata-se de prosseguir num esforço
teórico levado à cabo por alguns geógrafos e colegas de outras disciplinas,
preocupados com a mobilidade da Humanidade nesta contemporaneidade.
Mas, aqui meu esforço é aquele de
compreender como a Geografia, minha disciplina, lida hoje com a questão das migrações e do
migrante? Como entender as migrações em contextos territoriais concretos? Qual
o papel da mobilidade das pessoas nos lugares e entre lugares (regiões)? Como
distinguir funcionalidade e volume migratório? Há uma participação diferenciada
dos lugares no processo migratório contemporâneo? Como enfrentar a questão
migração/exclusão? Ou, a fluidez do território neste período
técnico-cientifico-informacional da História facilita e propicia as migrações?
O reconhecimento da multiplicidade de formas de movimentos populacionais não
significa a integração de espaços ditos globais? Existiria neste momento da
História, com o Mediterrâneo abrindo-se, como na profecia, a passagem dos
migrantes como uma “ilusão migratória”, os haitianos cheios de esperança
chegando ao Brasil, bem como outros povos latino-americanos? O Brasil esse
gigante, como reage a mobilidade dos povos que transformarão o Atlântico, de
oceano de sangue, como foi nos tempos da escravidão, em “mar da esperança para
os povos vindos do leste?
Quando nos propomos a pensar sobre
a questão da cidadania, que não é um conceito
geográfico propriamente dito, inúmeras são as questões que se colocam.
Trata-se, evidentemente de um interessante e urgente desafio a ser enfrentado
pelas ciências humanas e sociais, em especial pela Geografia que também é
conhecida como a “ciência do movimento” e que tem se debruçado tanto sobre a questão
das migrações.
Aqui já aparece um duplo problema:
da Geografia (?) e das “migrações internacionais”.
Na perspectiva da compreensão
teórica desta abordagem, o conceito de “migrações internacionais” necessita ser
ajustado:
1.
à compreensão atual do espaço geográfico, pois
migrar é deslocar-se pelos territórios, usando-os;
2.
às características deste período histórico que
revoluciona a ideia de espaço geográfico que até aqui dava “suporte” à
migração. Hoje, o espaço se sobrepõe ao tempo de modo a
valorizar os lugares e não mais se justapõe a ele (o tempo),
valorizando os deslocamentos;
3.
às novas categorias propostas pela Geografia,
bem como seus novos e revisitados conceitos, ainda não utilizados por muitos
geógrafos e outros cientistas sociais.
Finalmente, é preciso ter um
profundo conhecimento das dinâmicas do mundo e seus elementos propulsores para
compreendê-lo e, não apenas descreve-lo como nos tempos da geografia clássica
que insistem em perseverar.
1. Conhecendo o mundo ...
Indiscutivelmente o mundo mudou. A Razão
do mundo mudou. Precisamos estar atentos a isso, especialmente os
cientistas sociais. O mundo, conjunto de
possibilidades, - está hoje marcado pela aceleração, pela rapidez - momentos culminantes da História, como se
abrigassem forças concentradas explodindo para criar o novo. (Santos, 1993:
p. 15). Esses momentos culminantes da História podem significar a luta
geopolítica permanente (Oriente Médio), catástrofes naturais resultando em
aprofundamento severo das desigualdades socioespaciais (Haiti), busca de
melhores condições de vida em função da expulsão pela pobreza (povos
latino-americanos em direção aos USA, Europa e ... Brasil) e o encantamento das
distintas realidades do mundo difundidos pelas novas tecnologias da informação
e seu poder de sedução.
Esta aceleração contemporânea importa
nesta reflexão pois não apenas determina uma nova visão de mundo, como também “
dá novo ritmo ao deslocamento dos corpos
e das ideias”, transfigurando a História.
E é esta aceleração contemporânea
(SANTOS, 1994) que tem como resultado a banalidade
do evento (assistimos a mortalidade no Mediterrâneo como espetáculo
banal!), o perecimento prematuro dos
inventos e dos engenhos e sua sucessão alucinante. E, este é o aspecto que
dá uma nova dinâmica ao espaço geográfico e, por decorrência, às relações
sociais, logo políticas.
Tratam-se de relações simultâneas,
superpostas que transformam virtualmente tempo e espaço, em algo fugaz,
passageiro, frenético. Certamente dada a esse novo modo de pensar propiciado
pela rapidez do funcionamento das tecnologias, que não nos incomodamos tanto
com as migrações! São “normais”, faz parte destes tempos, onde tudo é possível!
É este o contexto da malfadada
“globalização” - ou globalitarismo como preferem Milton Santos e Octávio Ianni
– atributo maior deste mundo mutante. Mas atenção, pois quem sem globaliza são
as normas e os lugares! As pessoas e as mercadorias decorrem delas, logo tem
maior dificuldade para se movimentar. Mais fácil e mais barato fazer as normas
e as ideias se movimentarem do que as pessoas e as coisas! Ou, as pessoas viram
normas!!!! Acordos, promessas, discursos ... pactuados politicamente ou ...
burocraticamente! Eis a realidade do mundo!
Os lugares – esse espaço do acontecer
solidário – são mundiais! Quanto ao espaço geográfico – um indissociável e
contraditório sistema de objetos e ações – palpável como forma, estrutura,
função e conteúdo, ou seja, como território usado, ele somente se globaliza
como metáfora, ou, como norma. O que fica não é mais o mesmo, pois é
contaminado pela cultura dos lugares livres (dos ricos) ou resistentes (dos
pobres).
Mas atenção:
Hoje
o próprio espaço, o meio técnico-cientifico-informacional apresenta-se com
idêntico conteúdo de racionalidade, graças a intencionalidade na escolha de
seus objetos, cuja localização, mais do que antes é funcional aos desígnios dos
atores (agentes)[3] sociais capazes de uma ação racional. Essa
matematização do espaço o torna propício a uma matematização da vida social, conforme o interesse dos
interesses hegemônicos. Assim se instalam, ao mesmo tempo, não só as condições
do maior lucro possível para os mais fortes, mas também as condições para a
maior alienação possível, para todos. Através do espaço, a mundialização, em
sua forma perversa empobrece e aleija. (Santos, 1994: p. 17 – 18).
É nesta perspectiva que elabora também
Ianni (1992: p. 92): A globalização tende
a desenraizar as coisas, as gentes e as ideias. Emerge a
“desterritorialização”.[4]
O que queremos dizer é que estes tempos
de intenso “movimento” e dinâmica, tem implicações definitivas na vida social,
vale dizer, política e econômica.
Se, até os anos 60 do século XX a ideia
de migração – deslocamento maciço de população no espaço geográfico - pactuado
quase sempre, onde a ação era conhecida (o movimento espacial dos corpos), mas
o evento (a razão de ser) era difuso e desconhecido.
Há bibliografia abundante para demonstrar
a existência de políticas migratórias pactuadas no Brasil, desde o século XIX
(em troca da “abolição” da escravidão, por exemplo), onde o migrante conhecia o
rumo (o movimento, o espaço geográfico justaposto: da Itália, da Espanha, de
Portugal, da Inglaterra, da França, etc. etc. para a América Latina), mas não o
destino: no Brasil, por exemplo, se seria uma fazenda de café em São Paulo ou
no Paraná, o trabalho na cidade, etc. etc. Mesmo assim e, por consequência, as
migrações existiram, em massa, aqui e alhures! O espaço já era difuso, pois
capitalista e, os lugares, múltiplos!
Mas, o mundo mudou e mudaram também os
pactos! Os requerimentos do migrante são outros e o destino não é mais ignorado
e, na maioria das vezes, decidido por ele. A informação e a comunicação são
dois regentes maiores desse mundo. Novas categorias de análise se impõem!
Há uma nova razão no mundo: razão global/razão local (Santos, 1994)
geradora daquilo que estamos aqui denominando de razão clandestina/razão migrante. A primeira, dando conta da
intensa mobilidade pessoal e coletiva das pessoas (os desempregados,
os refugiados, os pobres, os exilados políticos, os esperançosos seduzidos
pelas informações, etc. etc.), da sonegação do direito ao trabalho legal e, a
segunda, dando conta de um tipo de migrante deste período, também: o colarinho
branco, os cientistas, os professores, enfim os trabalhadores legais em busca
de mais sucesso no mundo, os empresários e... a classe média enfastiada que não
ama seu país e se deixa contaminar pelas ideologias das grandes empresas de
informação que disseminam o terror social, em função dos interesses de classe
que representam.
Nesta perspectiva, sem dúvida a flexibilização do mundo do trabalho precisa
ser detidamente considerada neste período histórico, face às suas características
centrais, dado o papel da técnica, da ciência e da informação na sua dinâmica.
2. O mundo da técnica – a racionalização do
espaço geográfico.
É Santos (1994 b) quem nos conduz a esta
instigante reflexão, que propomos seja incorporada pelos demógrafos e demais
estudiosos desses crescentes movimentos de pessoas pelo mundo. Hoje, curiosamente,
eles também se intensificam no sentido Sul-Norte e não apenas Norte-Sul. Brevemente
ele será também significativo no sentido Leste – Oeste, dado o acelerado
crescimento das grandes cidades do continente asiático, onde as contradições
afloram com a exibição do aumento acelerado do número de pobres. [5] E
essas megacidades têm mais de 10 milhões de habitantes!
Hoje, todos os aspectos da vida,
indiscutivelmente, estão dirigidos por uma ordem
técnica que rege a ordem planetária (vide
a atual crise política mundial, manifestando-se economicamente e afetando todos
os países do mundo). Dessa razão é inseparável novas relações entre o espaço e o tempo, agora unificados sob bases
empíricas”. (Santos, 1994 b: p.1).
Nessa perspectiva, também, Santos (idem)
nos sugere duas ordens que fundamentam a razão
global e a razão local:
1.
O espaço geográfico é considerado um conjunto
indissociável de sistemas de objetos e ações;
2.
No plano global, as ações, que mesmo
“desterritorializadas” segundo ele, constituem normas de uso dos sistemas
localizados de objetos, enquanto que no plano local o território, em si mesmo,
constitui uma norma pelo exercício dessas ações. Em assim sendo, são nos
lugares – espaços do acontecer solidário
- constituídos nas localidades que esse mundo novo se dá, pela
possibilidade de fracionamento do tempo que cria o cotidiano e a possibilidade
do informal e do “clandestino”. Caso contrário seria dificílimo os haitianos
trabalharem em Cascavel, na agroindústria, os bolivianos e peruanos nas
industriais de confecção em São Paulo e, assim por diante...É a partir daí que
duas razões se superpõem, se confrontam e se defrontam (dialeticamente) no
lugar e no mundo. Aconteceres solidários formadores de lugares, articulados
pelos sistemas de informação, cimento dessas relações e interesses de toda
ordem que estão em jogo hoje, em todo mundo.
Parece-nos que uma das
características da movimentação da humanidade hoje (chamados movimentos
migratórios internacionais) perseguem essa nova ordem, com uma absoluta
identificação dos lugares, nas distintas localidades do mundo: os chamados
lugares mundiais, lugares de todos, de todo mundo. E, claro, as localidades
privilegiadas por esses movimentos de esperança são sempre as metrópoles,
aquelas mesmas que já foram chamadas de lugares mundiais. Mas, diante das
características destes novos tempos, todo lugar é mundial. Cascavel, no Paraná
que acolhe os haitianos é um lugar mundial. Essa funcionalidade e essa nova
razão do mundo – razão clandestina/razão
migrante – nada tem a ver com quantidade, tamanho populacional, mas com
busca de qualidade e esperança para viver. O mundo novo é sobretudo alimentado
por um par dialético: razão/emoção.
Esses lugares mundiais, do
informal, da produção flexível, da violência, da “flexibilidade tropical”,
lindamente definida por Milton Santos, da clandestinidade, pode ser São Paulo,
Nova York, Los Angeles, Cascavel, Foz do Iguaçu! Lugares onde espaço/tempo, Global/fragmento
abrigam “nichos migratórios internacionais”, por excelência.
Esses lugares são espaços de
convergência e da convivência, da diversidade e, ainda, lamentavelmente da
discriminação, da perseguição, da violência. Não por conta dos movimentos migratórios,
mas pela intolerância ao novo, ao diferente.
Diferentemente das migrações
pactuadas no início do século passado, a maioria destas são clandestinas, não
difusas, “invisíveis”. Estes são homens pobres, lentos, absolutamente sagazes
no domínio do movimento do mundo. E
sabem qual a direção a seguir. Nem sempre sabem “como”, mas “qual”, sempre!
Eles sabem dominar seus territórios nesses “lugares mundiais”, pois conhecem a
pedagogia de suas solidariedades.
Esses processos são bem descritos
por Edward Soja (1993: p. 232): Que outro
lugar poderia ser melhor ilustrar e sintetizar
a dinâmica da espacialização capitalista? Sob inúmeros aspectos Los
Angeles é o lugar onde “tudo se junta”. Lugar exemplar do encontro da razão
global/razão local.
As migrações internacionais hoje,
emergem da explosão de nações e territórios configuradas por levas de
refugiados, como foi outrora com Ruanda, o Leste europeu, o Cambodja, Cuba nos
anos 60, Bosnia-Herzegovinia! Hoje temos líbios, sírios, afegãos, homens,
mulheres, velhos e crianças que fogem de circunstancias existenciais graves
propiciadas pela guerra civil e global em seus países de origem, homens que
como os anteriores dificilmente são tolerados onde chegam aos milhares, então
rigorosamente controlados nos novos “campos de concentração” que são os
alojamentos a eles dedicados. Em nossas pequenas cidades, são os bairros
periféricos, onde nada existe, ou nos porões e esconderijos das indústrias que
lhes são destinados para viver sem as menores condições de saúde e higiene!
Mundo novo?? Não são criminosos de guerra, nem perseguidos por sua
nacionalidade! São perseguidos pelas caraterísticas essenciais deste mundo onde
a vida, seja lá de quem for, não tem valor algum! Como aplaudir bombardeios
exterminadores de seres humanos?? Como não acolher quem pede socorro, trabalho,
comida, respeito?? Mas eles se espalham e impõem com seu sofrimento a
constituição da tolerância, da convivência... Sabemos todos que o “mundo novo”
será assim!
Como compreender os diferentes
processos migratórios ou mesmo os cidadãos, que de um dia para o outro tem seu
território existencial totalmente arrasado: os migrantes que enfrentam o
mediterrâneo, os haitianos, os bolivianos, os brasiguaios, os coreanos, para
citar apenas alguns, que dia a dia se fazem presentes em tantos lugares do
mundo e, cada vez mais, na América Latina! Há que se pensar em novos usos do
território, criar possibilidades para novas constituições de lugares, novas
temporalidades e espacialidades exigidas pelo “mundo novo”! Povos que se tornam
migrantes de um dia para o outro! E o que dizer de estrangeiros que se vêm
obrigados a circular, permanentemente, em busca de vistos sonegados pelo
controle migratório que dia a dia aumenta, especialmente nos países ricos,
focos hoje dessa imensidão de migrantes?
Na
escala do globo, o motor implacável de tantas reorganizações sociais,
econômicas é essa mais valia global, cujo braço armado é a competitividade, que
neste nosso mundo belicoso é a mais guerreira de todas as ações. (Santos:
1994 b: p. 2).
Essa ordem técnica, caracterizada
por um sistema de objetos técnicos rigorosamente produzidos e localizados, pois
frutos da alta tecnologia, buscam a perfeição funcional e se constituem nas
bases materiais para as ações as mais significativas deste período histórico. Tais ações cientifica e tecnicamente
fundamentadas, tendem a ser informadas e intencionais.
E, exatamente devido a esta
fundamentação, que hoje as palavras de ordem são fluidez (condição global) e
competitividade (ação hegemônica, nos lugares). O lugar é a extensão do acontecer homogêneo ou do
acontecer solidário e que se caracteriza por dois gêneros de constituição: uma
é a própria configuração territorial [6];
outra é a norma, a organização, os regimes de regulação. (Santos, 1994 a:
p. 20).
O mundo é um conjunto de
possibilidades, cuja efetivação depende das oportunidades oferecidas pelos
lugares. É importante, ainda, como sugere Santos (1994 a e 1994 b) que a razão
global é organizacional (prima pela informação), pela própria rigidez dos
sistemas de objetos que necessita para seu funcionamento e a razão local é
orgânica (prima pela comunicação). Dai a razão clandestina/razão migrante.
Trata-se, portanto, do âmbito da
solidariedade que emergirá da clandestinidade. É o acontecer solidário que
define um subespaço, uma região ou um lugar (Santos, 1994 c).
3. O território como norma na razão
migrante/razão clandestina. A formação socioespacial como mediação.
Para finalizar estas breves
reflexões teóricas que buscam compreender o significado das migrações nesta
contemporaneidade é central, trazer à baila os conceitos de território e de
formação socioespacial.
Entendemos o território como a
historicização do espaço geográfico. Em assim sendo, ela só existe quando
praticado (a práxis: não nos esqueçamos de que ela é o motor da historia, das
relações sociais). Dai o território sempre ser usado. Território usado é assim
que se diz! Aliás, ele é também plano da nossa existência. Usamos o território
desde que nascemos! Não levitamos! Nós e todas as coisas que existem! Esse
território usado é nosso abrigo existencial. É o território normado, pela
constituição dos países. Esse território abrigo é submetido a uma norma (lei) e
um poder jurídico (o poder de Estado). Dependemos dele para viver. Território usado
é como quer Milton Santos, o território abrigo, ao qual todos tem direito. É o
espaço banal, como propunha no século passado François Perroux, economista
francês. Espaço banal, espaço de todos: de todas as pessoas, de todas as
organizações, de todas as instituições!
Mas ao migrante, o território
abrigo lhe é sonegado, em seu país de origem e também de destino. Ou seja, a
existência lhe é confiscada! Para ele a clandestinidade – o não existir – ou o
território como norma... das empresas para quem trabalha clandestinamente. O
território como norma não é o espaço banal! É o território das empresas,
submetido às suas normas, que entra em sua contabilidade, como recurso,
custo-benefício sempre usurpado do território usado, do espaço banal. Este
território nasce e é escolhido em função da dinâmica dos interesses
hegemônicos. Ele nas aqui ou ali, em função de interesses, não da vida, como o
anterior, o território abrigo. E esse território como norma pode ser, com um
pouco de sorte para ele, o território do migrante, do explorado, do
clandestino, como vemos em todos os cantos do mundo!
Milton Santos (1994 d) propõe a
existência de uma ordem territorial
decorrente do arranjo dos objetos, num sentido amplo que inclui o ser humano,
por exemplo, a distribuição da população. Mas propõe também uma ordem temporal dos objetos, que
fundamenta a compreensão de uma dada formação territorial ou formação
socioespacial como ele propõe. Não poderia estar nessas duas ordens os
fundamentos para a compreensão das “migrações internacionais”? Quem vai para
onde e fazer o que?
É preciso compreender que os
territórios se abrem para as mercadorias, mas são fronteiras por vezes
intransponíveis para os seres humanos. Aqui se fundamenta a razão clandestina da migração
internacional.
Mas é a cada formação socioespacial
que corresponde uma nova ordem territorial. É o modo de produção, através da genealogia espacial de um território que
assume a complexidade da realidade concreta como formação socioespacial .
(Castillo, 1994: p. 2).
É bom lembrar que a mobilidade da
força de trabalho sofre restrições por vezes severas na escala internacional.
Nessa perspectiva Smith (1998) sugere a reflexão sobre o desenvolvimento
desigual apontando uma interessante contradição: o capital tenta continuamente reforçar a integração espacial, apesar
das barreiras geográficas auto- impostas (no caso as fronteiras nacionais, que
impedem a expansão regional). E, neste ponto a contradição se revela ... a
tendência em direção a internacionalização do capital é severamente restringida
pela necessidade da Nação-Estado, como um meio de controle político.
Questões polêmicas, que foram entre
nós estimuladas por Octavio Ianni, a respeito do significado do Estado/Nação
nesta contemporaneidade e que provocou discussões interessantes e por vezes
apaixonadas entre nós.
De qualquer maneira, estas são
algumas das formulações teóricas que poderão e deverão ser testadas com dados
empíricos, para uma compreensão da mobilidade da população no mundo,
especialmente nesta atualidade, neste período histórico, voraz, rápido
impregnado de contradições e surpresas!
Mas uma coisa é certa: delas já
emergem uma característica fundamental da razão
migrante/razão clandestina: a solidariedade, característica dos novos
tempos e da instituição do Período Popular da História, proposto por essa
magnífica Geografia Nova.
BIBLIOGRAFIA CITADA:
CASTILLO, Ricardo. 1994. As aproximações sobre o tema da formação
socioespacial e do lugar como mediações. São Paulo, ANPEGE. (inédito).
IANNI, Octavio. 1992. A sociedade global. Rio de Janeiro.
Civilização Brasileira.
SANTOS, Milton. 1994. Desafio do Ordenamento Territorial “O
pensamento”. 1994. São Paulo (inédito).
SANTOS, Milton. 1994a. Aceleração Contemporânea: tempo mundo e
espaço mundo. In: SANTOS, Milton. SOUZA, Maria Adélia, ARROYO, Monica e
SACARLATO, Francisco. Fim de século e globalização. O NOVO MAPA DO
MUNDO. (COLETÂNEA). São Paulo, HUCITEC/ANPUR.
SANTOS, Milton. 1994b. Razão global/razão local. Os espaços da
racionalidade. Festival Saint-Dié-des-Vosges. (inédito).
SANTOS, Milton. 1994c. O lugar encontrando o futuro. São
Paulo. (inédito).
SOJA, Edward. 1993. Geografias Pós-Modernas. A reafirmação do
espaço na teoria social crítica. Rio de Janeiro. Jorge Zahar.
SMITH, Neil. 1988. Desenvolvimento Desigual. Natureza, capital
e produção do espaço. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil.
[1] As
ideias preliminares deste texto foram apresentadas no Seminário CONTEXTO GERAL
DAS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS, coordenadas pelo NESUR – IE e NEP da UNICAMP, em
março de 1995, posteriormente no XV ENCONTRO DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA
intitulado EDUCAÇÃO, TERRITORIO E CIDADANIA, realizado em Porto Alegre em maio
de 1195..
[2]
Esse grupo de pesquisa sobre a DIASPORA HAITIANA vem sendo organizado na UNILA
sob a coordenação do Prof. Dr. José Renato Vieira Martins, com quem tenho tido
o privilégio de colaborar. Este texto que retomo depois de tê-lo iniciado há 20
anos atrás se constitui em uma resposta a esse estimulo do grupo para pensar a
questão dos migrantes haitianos no Brasil. Assim é o trabalho intelectual nas
ciências humanas: lento e difícil, pois ele precisa no caso da Geografia que é
uma ciência do presente, ajustar o método e colar no presente e no futuro. E,
neste o novo insiste em nos alertar. Mas é preciso na ciência não confundir o novo
com a novidade. Esta é a ferramenta dos oportunistas e carreiristas que adotam
a novidade do mundo como objeto de pesquisa. Esta, cuidado, sempre atende a
interesses imediatistas. E, tristemente a universidade tem se deixado
contaminar por eles. A intensificação da movimentação da população pelo globo
tornou-se o novo, lamentavelmente, daí merecer nosso esforço intelectual, nosso
questionamento e indagações. Somente daí luzes deverão surgir para enfrenta-lo.
Por isso e para isso existe a universidade. Por isso ela é uma instituição
social de enorme valia e não pode ser amesquinhada pelos incautos.
[3]
Correção da autora desta reflexão. Na existência, na vida real não
desempenhamos nenhum papel, por isso não somos “atores”. Este ranço
neoclássico, marginalista, que tem seu ventre nos “intelectuais” das grandes
agencias internacionais, que tratam o mundo como metáfora, dificultando a
compreensão da realidade concreta e, por consequência, atrasando as
possibilidades de ação sobre ela. Quem não compreende não pode definir
estratégias corretas e... ataca equivocadamente. Somo AGENTES sociais, não
atores! Não representamos a vida. Vivemos a vida.
[4] Na
perspectiva de reflexão e consideração conceitual do espaço geográfico, que
historicamente se nos apresenta como uso, como território usado, como instancia
social, como categoria social de análise e plano definitivo da existência
humana, a ideia de “desterritorialização”, lamentavelmente presente em textos
geográficos, não é aceita. Mas não é este o momento de discutir esse tema, o
que aliás, a autora já o fez com seu amigo e mestre Octávio Ianni, em tempos
idos.
[5]
Segundo relatório recentemente divulgado das Nações Unidas, contrariamente ao
processo histórico existente até o início do século XI, as maiores megacidades
do mundo, são asiáticas, pobres e com mais de 10 milhões de habitantes. São
elas: Jakarta (Indonésia) com quase 27 milhões de pessoas; Délhi (Índia) com
quase 23 milhões de pessoas; Karachi
(Paquistão), com quase 21 milhões de habitantes; Shenzen (China), com 12
milhões; Lagos (Nigéria) com 12 milhões; Pequim (China), onde chegam 600.000
pessoas por ano; Bangkok (Tailândia), Dhaca (Bangladesh), Guangzhou, Foshan e Xangai (China), esta ultima com 21
milhões de pessoas!!!! (ONU,
World Urbanization Prospects: The 2014 Revision [Highlights]. N. York,
2014:p.14. E atenção: 7 em cada 10 pessoas viverão em cidades com mais
de 10 milhões de habitantes em 2050! Daremos conta das demandas desse volume de
população, com as dividas sociais que se acumulam a cada década? E com o
processo migratório, inesperado, que se agudizará? E, também... Tóquio, chamada
de “metacidade” superou os 30 milhões de habitantes, segundo esse estudo!
[6] A configuração territorial são os meios
de ação cristalizadas (Durkheim) que podem ser considerados como equivalente ao
“trabalho morto” (Marx) representada em nossos dias, pelo conjunto de objetos
culturais que, ao lado ou no lugar dos objetos “naturais”, cuja significação
modificam, formam o que podemos chamar de configuração espacial, configuração
territorial ou configuração geográfica, da qual a paisagem é u aspecto uma
fração. (SANTOS, 1996, p.61).